SILVIO CIOFFI — ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
Vivendo uma retomada, cenário de um inédito Grande Prêmio de F-1 no dia 8 de maio, Miami teve atrações repaginadas, inaugurou o novo museu Superblue com ambientes imersivos na realidade virtual e caprichou no lançamento de novidades na gastronomia.



No Sudeste da Flórida, o que chamamos de Miami é, na verdade, a Grande Miami —ou The Greater Miami and The Beaches— uma reunião de aglomerados urbanos como Miami e Miami Beach. Em conjunto, elas têm no turismo a sua principal atividade econômica. E, se juntarmos o número de visitantes da Grande Miami com os que vão anualmente para Orlando, teremos que o Estado da Flórida, representado pelo Visit Florida, está no topo do ranking da indústria do turismo receptivo norte-americano.



Só para o aeroporto de Miami, voam cerca 90 companhias aéreas de mais de 130 países. Assim, embora Miami Beach e Miami tenham vocações turísticas diferentes, onde quer que se vá, a diversão é garantida.
Espalhada, a Grande Miami é atravessada —e unida— por “causeways”, vias expressas sobre pontes que conectam os os diversos aglomerados urbanos.
Para quem não quer guiar, um dica é fazer um tour multilínguas hop-on/hop-off do Big Bus (www.miamicitysightseeing.com). Acessível em vários pontos, o ônibus de dois andares com piso superior conversível oferece passeios para um ou dois dias. Entre outros lugares, o tour visita Ocean Drive, Lincoln Road, Espanola Way, Jungle Island, Freedom Tower, Downtown Miami, Bayside Market Place, Bayfront Park, Museu Vizcaya, Little Havana, Key Biscayne e Wynwood Walls.

O clima de “verão interminável” também ajuda a atrair visitantes para Miami. Muito embora haja uma estação mais quente e úmida, isso entre maio e outubro, e outra mais amena e menos chuvosa, de novembro até abril, são raros os dias não ensolarados por lá. Em resumo, espere temperaturas médias de 29° C no verão norte-americano e de 19° C , no “inverno”.

Movida então por esse frenesi de viajantes, a Grande Miami —que já foi identificada como um paraíso de compras pelos brasileiros até os anos 1990— tem sofisticado também a sua praça hoteleira e, no ano 2000, inaugurou, ao lado do shopping Bayside, a contemporânea e esportiva AA Arena (AA vem de American Airlines).
CAPITAL CRUISE OF THE WORLD
Além dos turistas que chegam via aeroporto, a Grande Miami, onde vivem 460 mil habitantes, é uma capital mundial dos cruzeiros desde que remodelou seu porto para receber transatlânticos de todas as principais empresas de navegação, caso da Royal Caribbean/RCCL, Virgin, MSC, Carnival, NCL, Disney etc. Outra possibilidade é, depois de se esbaldar por lá, fazer uma viagem de navio para o Caribe —e até para destinos mais longínquos.

SOUTH BEACH, MAS PODE CHAMAR DE SoBe
Lugar dos hotéis mais elegantes à beira-mar não dá para ir a Miami sem explorar as praias de Miami Beach —e, em particular, a região de agito e badalação que os locais chamam de SoBe (abreviatura de South Beach).
Há alguns anos, people watching (que poderia ser traduzido como “ver e ser visto”) ficava mais restrito ao bairro histórico Art Déco de South Beach. Ali, na avenida à beira-mar, estavam concentradas mansões em estilo art déco que abrigavam os bares e restaurantes da moda e pequenos hotéis clássicos.

A badalação dessa área hoje nem tão festejada do distrito Art Déco já foi descrita —de forma mordaz— no livro Fool’s Paradise… Players, Poseurs and the Culture of Excess in South Beach, de Steven Gaines. Ali, à beira-mar, na Ocean Drive, 1.114, ainda vale ver onde fica o casarão neomediterrâneo diante do qual o estilista Gianni Versace foi assassinado em 1997, aos 50 anos de idade. Datado e considerado cafona por muitos, Versace vestiu astros como Sting, Elton John e até a princesa Diana.

(Foto Silvio Cioffi-V!VA)

(Foto Silvio Cioffi-V!VA)
Menos estravagante do que já foi, mas ainda interessante, essa região do distrito Art Déco foi perdendo espaço para o agito, as galerias de arte e os museus contemporâneos da Lincoln Road, também em SoBe. Idem o comércio, por ali junta pequenas butiques, uma constelação de restaurantes, a loja Apple e mega farmácias como Walgreens e CVS.


A regeneração urbana da Lincoln Road começou ainda em meados dos anos 1980, com restauros em prédios que o arquiteto modernista Morris Lapidus projetou nos anos 1950. Um deles é o Nautilus by Arlo, um hotel com piscina que dá para a praia. Outro exemplo é o Fontainebleau. Outro hotel mais moderno —e igualmente caro— por ali é o Faena, com seu estilo extravagante e pertencente a um grupo hoteleiro argentino.
FREEDOM TOWER E BAYSIDE
Outra região para explorar, comprar, andar de barco e petiscar, fica no entorno do shopping Bayside e da AA Arena. Além de centro de compras e das torres que integram o centro financeiro, o Freedom Tower, ou Torre da Liberdade, é referência para quem gosta de referências arquitetônicas históricas mesmo estando na Grande Miami.


Inspirada na torre da Giralda de Sevilha, na Espanha, a Torre da Liberdade foi erigida em 1925 pelo escritório de arquitetos Schulze & Weaver —e empreitada por James M. Cox para abrigar o jornal Miami Daily News. Com a Revolução Cubana de 1959, ela virou sede do Comitê dos Refugiados Cubanos, que, na época, somavam 500 mil pessoas.



(Foto Silvio Cioffi-V!VA)

(Foto Silvio Cioffi-V!VA)
Ao lado, o Bayside Marketplace tem lojas meio hippies, bares com acento latino e uma pequena roda-gigante. Quem estiver fazendo o tour de ônibus hop-on/hop off pode pegar lá um barco (“boat tour”), incluído no passeio, para visitar as mansões que pertenceram ou pertencem a celebridades internacionais como Will Smith, Julio Iglesias, Chakira, Jack Chan e até uma casa da Xuxa, a eterna rainha dos baixinhos do Brasil.
WYNWOOD, SUAS GALERIAS E GRAFFITIS
Nos anos 1990, Wynwood, na região de Mid-Town, foi se transformando num local voltado às artes alternativas. Hoje, graffitis de artistas de vários países, cobrem muitos dos seus muros e já há perto de 70 galerias de arte e lojas voltadas para a decoração e objetos de casa por lá.


O brasileiro Kobra, o britânico Banksy e o norte-americano Tony Goldman são alguns dos artistas do movimento street art que deixaram obras nas paredes desse bairro com toque mano e humano.
LITTLE HAVANA
Para os passadistas, a Calle Ocho, rua principal do bairro de Little Havana, na porção oeste da Grande Miami, é o lugar para saborear comida cubana, comprar uma camisa de linho com bolsos e rendas (guayabera) ou simplesmente tomar um drinque mojito.

Um restaurante muito famoso do bairro é o Versailles, mas até dentro do supermercado de Calle Ocho há um prato feito que pode conter arroz e feijão preto, carne assada ou leitão, num menu que se assemelha ao trivial brasileiro.
As coisas mudaram em Miami, os cubanos fugitivos de Fidel Castro envelheceram, mas ainda há uma praça que alude à Revolução de 1959. E não se atreva a pedir um drinque Cuba Libre, a menos que você queira escutar que “não há Cuba livre”.


MUSEU VIZCAYA X SUPERBLUE
Há que diga que a Grande Miami não é lugar para frequentadores de museus. Ledo engano, pelo menos para os apreciadores de arte mais renitentes.
Uma miríade de museus, especialmente os ultracontemporâneos, caso, por exemplo, do museu da Rubell Family, na região de Lincoln Road, em 1.100 NW 23rd St., em SoBe.

Quem gosta de museu histórico e de artes decorativas, deve programar uma visita à aristocrática Casa Vizcaya, uma mansão construída entre 1914 e 1916, em 3.251 South Miami Ave., no bairro de Coconut Grove.
Designada patrimônio nacional em 1970, a casa e os jardins do entorno abrangem uma área de 500 mil m² e incluem um jardim botânico.
O museu tem cerca de 70 salas com objetos europeus de épocas diversas, alguns do século 15, muitos dos séculos 18 e 19. Usada para encontros e convenções, ela já recebeu líderes mundiais como a rainha Elizabeth 2ª, o papa João Paulo 2° e os ex-presidentes norte-americanos Ronald Reagan e Bill Clinton.
No outro extremo, Miami recém inaugurou o museu Superblue, que fica na 1.101 NW 23rd. St., bem próximo ao mencionado museu Rubell, em SoBe, na localidade chamada Allapattah. O Superblue é descrito como uma experiência de arte imersiva, com atrações reais e virtuais, labirintos de espelhos e reúne trabalhos de artistas com Es Devlin e Teamlab. Dentro, há um café multicolorido chamado Blue Rider.
BARES E RESTAURANTES
Novidadeiros consideram o novíssimo restaurante CH´I, que fica em 701 South Miami Ave. no Brickell City Centre, a maior novidade da cena gastronômica da Grande Miami. O menu (www.chibrickell.com) promete comida em estilo asian-fusion e muita inovação.
Para quem quer lugares eternos, o velho Joe´s, na 11 Washington Ave. em Miami Beach, é um paraíso de frutos do mar, das ostras frescas e especializado no caranguejo “stone crab”. Aberto em 1913, o Joe´s Stone Crab tem boa seleção de vinhos brancos, sobremesas copiosas e preços um tanto salgados.

Mais escondido dos turistas, o Schuckers Waterfront Bar & Grill, na 1.819 79th St. causeway, em Northbay Village, é difícil de acessar para quem não está de carro. Trata-se de um imenso bar e restaurante de frutos do mar defronte para o oceano. O lugar, repleto de jovens e com píer para lanchas, é especialmente indicado para quem quer ver o pôr-do-sol, sentar-se ao ar livre para um drinque ou taça de vinho, deliciar-se com ostras, pratos de peixes e de “crabcakes” (tradicionais tortas recheadas com caranguejo).


SITES:
www.VisitFlorida.com
www.MiamiandBeaches.com
CURIOSIDADES, FATOS E NÚMEROS
LINHA DO TEMPO DA GRANDE MIAMI
POR SILVIO CIOFFI
—Hoje, a Grande Miami tem cerca de 2,1 milhões de habitantes e junta Miami e Miami Beach —ligadas pela ponte MacArthur.
—Há pouco mais de um século, “maiami” era como os índios seminoles chamavam os lagos de água doce nessa então pantanosa região do sul da Flórida.
—Ao sul, Miami está ligada às Flórida Keys, um conjunto de ilhas coralinas que tem em Key West seu balneário famoso.


—Reza a lenda que o explorador Ponce de León (c. 1460-1521), espanhol, foi seu primeiro visitante.
—E é fato que Ponce de Léon —que por ali procurava em vão a fonte da juventude— foi assassinado pelos índios.
—Entre a pioneira ocupação espanhola e a ocupação pelos EUA, em 1821, a região ficou isolada por 230 anos.
—Só em 1857, oficiais do forte Dallas fundaram um posto do correio dos EUA.
—Cheia de crocodilos, aligátores e mosquitos, Miami era o que se pode chamar de região pouco receptiva.
—Em 1896 quando a guerra contra os seminoles deu uma trégua, o pioneiro comerciante William Brickell teria feito “amizade” com os índios e iniciado a construção de sua ferrovia.
—Miami passaria existir oficialmente depois que 16 empresários norte-americanos ali se estabeleceram no século 19 —quatro deles eram judeus.
—Então, a ferrovia de Flager finalmente ligou Miami ao restante do território dos EUA.
—Ligado ao magnata John D. Rockefeller (1839-1937), da Standard Oil, Flager explorou o comércio marítimo entre Miami e Nassau, nas Bahamas.


—Em 1913, o empresário Carl Fisher usou dragas para formar a praia de Miami Beach.
—Nos anos 1920, foi a vez do turismo entrar no mapa quando Coral Gables foi loteada por George Merrick.
—E foi em 1925 que surgiu a Freedom Tower, ou Torre da Liberdade, diante do porto (veja no texto principal).


—Assim como a torre mencionada, o hotel Biltmore, ainda hoje um landmark, em Coral Gables, também foi criado pelos mesmos arquitetos e teve sua torre inspirada na Giralda, de Sevilha (Espanha).
—O histórico hotel Biltmore foi ainda hospital e manicômio. Frequentado por celebridades, curiosamente teve o atleta Johnny Weissmuller, que atuou como Tarzã, como seu salva-vidas.
—Hóspedes ilustres do hotel Biltmore foram a família Vanderbilt, a atriz Judy Garland e o gângster Al Capone, entre muitos outros.

—Quando o estilo art déco com viés praiano entrou em voga, Miami Beach estava no auge.
—O crack da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, quebrou as pernas do turismo de Miami, que mergulhou numa certa decadência.
—Transformada em paraíso de aposentados não abastados, Miami Beach fez a sua reviravolta turística com o tombamento do Distrito Art Déco.
—A onda de renovação, no entanto, já estava em curso dede 1976, quando Barbara Capitman criou a Miami Design Preservation League (www.mdpl.org).
—Paraíso de compras nos anos 1980 e 1990, a Grande Miami adentrou no novo milênio edificando prédios como o estádio AA Arena.
—Em grande forma, a região de South Beach/SoBe e o bairro alternativo de Wynwood representam a virada e sinalizam que a Grande Miami mira o futuro do turismo na Flórida e que a pandemia de covid-19 já ficou no passado.